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Pesquisa de Campo – 2025
Autor:
Wanderley Batista de Carvalho

1. INTRODUÇÃO

Este documento apresenta os resultados de um mapeamento inédito realizado com 18 ceramistas atuantes em diferentes municípios do estado do Tocantins. O estudo investigou o perfil sociodemográfico, formas de aprendizagem, técnicas produtivas, organização do trabalho, aspectos econômicos e perspectivas do setor. Os resultados revelam um grupo majoritariamente composto por artesãos experientes, cuja prática combina tradição familiar, autodidatismo e formação complementar em oficinas. A produção é eminentemente utilitária, fundamentada no uso de barro regional e em técnicas tradicionais de modelagem e queima, ainda que práticas contemporâneas estejam em expansão.

Apesar da relevância cultural e simbólica da cerâmica para o estado, apenas um terço dos entrevistados vive exclusivamente desse ofício, evidenciando vulnerabilidade econômica. Entre os principais desafios estão a escassez de espaços permanentes de comercialização, a dificuldade de acesso a políticas públicas e a carência de equipamentos básicos para o beneficiamento da argila. O estudo contribui de maneira significativa para o campo da economia criativa e oferece subsídios para o desenvolvimento de políticas de valorização, salvaguarda e fortalecimento da cerâmica tocantinense, setor marcado pela diversidade, resistência cultural e potencial de crescimento.

A cerâmica artesanal ocupa lugar importante na cultura tocantinense, constituindo-se simultaneamente como expressão artística, patrimônio imaterial e importante fonte complementar de renda para os ceramistas. Apesar de sua relevância histórica e simbólica, observa-se escassez de estudos sistematizados sobre o setor, o que limita a compreensão de sua dinâmica produtiva e a formulação de políticas adequadas.

 

A pesquisa apresentada integra o projeto “Mapeamento e Catalogação dos Ceramistas do Estado do Tocantins”, cujo propósito é registrar os modos de fazer, mapear a diversidade de práticas existentes e compreender as condições de trabalho dos ceramistas no estado. Trata-se de um estudo pioneiro no Tocantins que, além de documentar trajetórias individuais, busca revelar um panorama geral da atividade ceramista, suas potencialidades e fragilidades.

 

O objetivo geral foi caracterizar o perfil socioprodutivo dos ceramistas, identificar técnicas e materiais empregados, compreender a inserção econômica desses trabalhadores e levantar suas necessidades e perspectivas futuras.

2. METODOLOGIA

 

A pesquisa foi realizada ao longo de 2025, por meio de formulários e entrevistas semiestruturadas. Participaram ceramistas de Palmas, Miracema, Porto Nacional, Arraias, Lajeado, Peixe, Gurupi e Pindorama.

Foram analisados:

  • Perfil sociodemográfico;

  • Formas de aprendizado e transmissão do saber;

  • Tipos de barro e origem da matéria-prima;

  • Técnicas de produção;

  • Organização produtiva;

  • Renda e canais de comercialização;

  • Desafios, necessidades e perspectivas futuras.

Os dados foram tratados com técnicas de estatística descritiva e análise de conteúdo.

3. RESULTADOS

 

3.1 Perfil Sociodemográfico


Os 18 ceramistas possuem entre 4 e 70 anos de experiência, predominando trajetórias de longa duração —alguns com mais de 20 anos de atividade contínua.

 

Escolaridade

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A presença de 40% de profissionais com ensino superior reforça o caráter híbrido entre tradição e formação formal.

3.2 Formação e Aprendizado do Ofício

 

O aprendizado ocorre principalmente de forma tradicional e prática, com destaque para a transmissão familiar. A maior parte dos entrevistados também ensina o ofício, seja por meio de oficinas, aulas particulares, atividades em escolas ou transmissão direta para familiares. O ensino do fazer cerâmico revela o papel educativo e comunitário da atividade.

3.3 Produção, Matéria-Prima e Técnicas

 

Tipos de barro utilizados: Argila comum, barro branco, barro vermelho/terracota, misturas com argila orgânica, barro de barranco e argilas provenientes de regiões como Arraias, Pindorama e Miracema.

 

Origem da matéria-prima: Fazendas rurais, margens do rio Tocantins e cerâmicas de tijolos e telhas. Em muitos casos, há dependência de terceiros ou dificuldade de extração própria.

 

Tipos de produtos: A produção é majoritariamente utilitária (panelas, potes, vasos, utensílios). Esculturas e peças decorativas aparecem em menor escala.

Técnicas predominantes:

  • Modelagem manual

  • Torno elétrico (em alguns ateliês)

  • Placas

  • Engobes e esmaltação

  • Queima tradicional a lenha

  • Queima elétrica de alta temperatura

 

A coexistência de práticas tradicionais e contemporâneas mostra a diversidade estética e criativa presente no estado.

3.4 Organização Produtiva e Comercialização

Forma de trabalho: A produção é essencialmente individual (16 dos 18 ceramistas), com apenas dois atuando em grupos ou cooperativas.

 

Dependência econômica da cerâmica:

  • Cerâmica como principal renda – 5;

  • Cerâmica como renda complementar – 13.

 

Faixa de renda mensal:

 

  • Até 1 salário-mínimo – 9;

  • 1 a 2 salários – 5;

  • 2 a 3 salários – 1;

  • Acima de 6 salários – 2.

Outras ocupações: Professores, servidores públicos, cozinheiras, agricultores, artesãos multifuncionais e aposentados.

 

Canais de venda: O principal canal é a venda sob encomenda. A comercialização por lojas, internet ou feiras é menos frequente e pouco estruturada.

 

Acesso a políticas públicas: A maior parte dos ceramistas não possui acesso contínuo a programas governamentais. Os poucos que têm contato mencionam iniciativas do Sebrae, Artesanato Tocantins, PNAB, PAB e editais de cultura.

 

3.5 Significados, Desafios e Perspectivas

 

O que a cerâmica representa: Identidade, continuidade da tradição, herança familiar, expressão criativa, terapia, sustento e conexão simbólica com o território.

Principais desafios identificados: Carência de espaços permanentes de venda; falta de divulgação e alcance do público; necessidade de apoio financeiro e logístico; escassez de qualificações técnicas específicas; pouco acesso a equipamentos; baixa representatividade institucional.

Planos e sonhos dos ceramistas: Ampliar a produção, construir ateliês, criar peças exclusivas, adquirir fornos e equipamentos próprios, dar continuidade ao ofício com novas gerações e conquistar maior reconhecimento.

Cursos e capacitações desejadas: Torno elétrico, esmaltação, engobes, queima elétrica de alta temperatura, acabamento, criação e design cerâmico, marketing e comercialização.

 

3.6 Necessidades e Equipamentos

Entre as necessidades mais recorrentes estão: triturador de barro; maromba; forno de queima; reorganização do espaço produtivo; acesso facilitado à argila; apoio de logística e distribuição; estratégias de valorização profissional e cultural.

4. Considerações Finais

A cerâmica tradicional do Tocantins permanece como referência cultural e identidade coletiva, revelando modos de fazer transmitidos entre gerações e profundamente vinculados ao território. A jornada pela cerâmica tocantinense mostra que a arte de moldar o barro é muito mais que um ofício: trata-se de uma crônica continuada, uma prova material da riqueza cultural e histórica do lugar.

Desde os grafismos que evocam pinturas rupestres, passando pelas histórias dos povos originários transmitidas por meio das peças, até a cerâmica figurativa e a iconografia inscrita nos artefatos, observa-se que o barro serviu — e ainda serve — como um dos principais meios de expressão da identidade regional. Essa dimensão simbólica reforça a importância da preservação dos saberes tradicionais e da valorização dos artesãos que os mantêm vivos.

Entretanto, a permanência dessa tradição depende da criação de ambientes favoráveis à produção e circulação das peças, bem como do fortalecimento das políticas públicas, da ampliação das oportunidades de formação técnica e do acesso a mercados sustentáveis. A integração de ações culturais, educativas e econômicas se apresenta como caminho fundamental para garantir a continuidade e a vitalidade da cerâmica tocantinense.

O mapeamento evidencia um setor rico, diverso e profundamente enraizado na cultura tocantinense, mas atravessado por desafios estruturais que comprometem sua sustentabilidade. A coexistência entre tradição e inovação mostra um campo em expansão, cujo potencial criativo e cultural permanece subaproveitado pela falta de políticas públicas consistentes.

Os dados apontam para a necessidade urgente de:

 

  • Criação de espaços permanentes e descentralizados de comercialização.

  • Programas continuados de formação técnica e artística.

  • Incentivo à digitalização e divulgação dos produtos.

  • Investimentos em infraestrutura e equipamentos para beneficiamento da argila.

  • Ampliação das redes de cooperação entre ceramistas.

  • Políticas de salvaguarda do patrimônio cultural relacionado à cerâmica tradicional.

 

Este estudo constitui uma base inédita para o estado, oferecendo subsídios concretos para gestores públicos, pesquisadores e instituições culturais interessadas na valorização da cerâmica tocantinense. Além de registrar práticas e trajetórias, contribui para fortalecer a economia criativa regional e para garantir que os saberes tradicionais continuem vivos e transmitidos às futuras gerações.

Veja Onde Estão os Ceramistas do Tocantins

 Explore o mapa abaixo para visualizar a distribuição geográfica desses artistas e a abrangência do estudo.

MAPEAMENTO SOCIOPRODUTIVO
DOS CERAMISTAS DO ESTADO DO TOCANTINS

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